Movimente-se! O efeito da atividade física no cérebro

Como a cultura mudou os hábitos do Homo Sapiens

Hoje inauguro mais uma seção no blog! Movimente-se é um seção dedicada às atividades físicas, parte importante e essencial do estilo de vida Primal. As atividades físicas têm sido recomendadas por cientistas e médicos para o tratamento de depressão e a melhoria da memória. Exercícios, em particular, levam a produção de certos neurotransmissores no cérebro responsáveis por aliviar a dor física e mental e aumentar o potencial sináptico, ou seja, fortalecer as conexões dos neurônios no cérebro. Boa parte dos cientistas também acredita que a atividade física promove o crescimento de novos neurônios. A maioria das pesquisas nessa área tem sido focadas em exercícios aeróbicos, que exercem seu efeito no cérebro por meio de vários mecanismos, incluindo a neurogenesis, melhora do humor e liberação de endorfina. Tentarei descrever como esses mecanismos agem para melhorar as funções cognitivas e para melhorar o humor. Depois, irei explicar porque o exercício é naturalmente rejeitado em nossa sociedade atual, apesar dos enormes efeitos de recompensa gerados após a prática. 
 

Uma das mudanças mais significativas gerada pela prática regular de exercícios aeróbicos é a neurogenesis, ou seja, criação de novos neurônios. Novos neurônios são gerados no hipocampo, a área do cérebro responsável pela criação de memórias e  inteligência espacial. Em nível celular, o estresse gerado pelo exercício físico é responsável por estimular o fluxo de cálcio, que ativa os “fatores de transcrição”,nos neurônios do hipocampo já existentes. Os fator de transcrição ativa a expressão do gene, ou seja o fator neurotrófico entregue ao cérebro (BDNF), criando proteínas BDNF que agem para promover neurogeneses. Assim a geração do BDNF é uma resposta protetora ao stress e o BDNF age não somente para gerar novos neurônios, mas também para proteger os já então existentes e para promover plasticidade cerebral (plasticidade cerebral é a eficiência da transmissão sináptica entre neurônios, que é considerada a base para o aprendizado e a memória).

A manutenção dos neurônios do hipocampo é particularmente mais relevante para indivíduos acima dos 30 anos, já que é nessa idade que o corpo naturalmente começa a sofrer perda gradual de conexões cerebrais devido a perdas hormonais. Os exercícios aeróbicos agem de forma a reforçar as conexões cerebrais entre neurônios, criando uma rede mais densa, a qual se torna mais capaz de processar e guardar informações. Este fato somado com pesquisas controladas sugere que os exercícios aeróbicos agem com efeito terapêutico para a prevenção de doenças degenerativas como o Alzheimer e Parkinson, que progridem por meio da perda de neurônios. Realmente a correlação entre Alzheimer e estilo de vida, como atividades físicas, relações sociais, prática de uma segunda língua é obvia e já foi provada por muitas pesquisas. Além disso, o exercício tem demonstrado maior proteção contra Parkinson em experimentos em laboratórios com ratos, pois aumentam a produção do neurotransmissor Dopamina, que é responsável pela excitação, atenção e concentração.
 
A melhora cognitiva foi constatada pela seguinte pesquisa controlada: um grupo de indivíduos de 60 a 75 anos e um grupo de indivíduos de 18 a 24 anos foram acompanhados realizando exercícios em um ambiente controlado. O resultado foi a melhora de funções cognitivas como planejamento, organização e memória de trabalho no grupo de indivíduos mais velhos, enquanto no segundo grupo os benefícios foram menos óbvios. Em compensação, uma análise de ondas cerebrais foi conduzida para medir a velocidade cerebral em resposta a estímulos antes e após o inicio das atividades físicas. No grupo mais jovem, houve um aumento de 35- milissegundos na velocidade, no segundo grupo, houve menor perda cognitiva.

Exercícios e felicidade

Não é possível somente se exercitar para alcançar excelência cognitiva, porém a atividade física otimiza os funções cognitivas durante atividades que demandam raciocínio lógico. É possível se exercitar para alcançar melhora de humor e mais felicidade, já que ela tem mostrado grande correlação como tratamento de depressão em diversos estudos. O que normalmente gera a depressão é a falta de um neurotransmissor inibidor responsável pela regulação do humor chamado serotonina, junto como o neurotransmissor excitatório noradrenalina. Os exercícios em geral aumentam a concentração desses neurotransmissores por meio da estimulação do sistema nervosa. Mais além a serotonina tem uma relação recíproca com o BDNF, já que o BDNF aumenta a produção de serotonina e ao mesmo tempo a serotonina estimula a produção do BDNF. Como o exercício aumenta a produção de BDNF diretamente, ocorre um reforço do ciclo de serotonérgico no BDNF, indicando que atividade física tem uma grande potencial para melhorar o humor.

 Outro fator a ser considerado é a endorfina, que é um hormônio liberado pela glândula pituitária em resposta ao stress ou dor. Exercícios aeróbicos, principalmente, estimulam a produção de endorfinas após 30 minutos de atividade. A endorfina tende a minimizar o desconforto do exercício e ainda gera uma sensação de euforia. Não se sabe se a endorfina é diretamente responsável pela sensação de euforia ou se ela age bloqueando a dor e assim permitindo que o sentimento de prazer associado aos neurotransmissores como a dopamina e serotonina se tornem mais aparentes. Se o último for verdadeiro, significa que há uma conexão com o BDNF via ciclo da Serotonina- BDNF. Novamente o BDNF é o neurotransmissor responsável pelo benefício dos exercícios, de forma a minimizar a resposta do corpo ao stress e que promove a neurogenese. A endorfina é viciante portanto uma vez que uma rotina for estabelecida o corpo sentirá necessidade de doses regulares de endorfina. De fato, o efeito da endorfina é muito notável e se assemelha a opióides como a morfina e a heroína.
 
Sendo tantos os benefícios associados a atividade física, qual será o motivo pelo qual somente 15% dos americanos fazem atividades físicas?
 
A razão talvez se fundamente no fato de que o ser humano moderno, diferentemente de nossos ancestrais da época pré-agricultura que surgiu aproximadamente á 10.000 anos atrás, não depende da caça para sobreviver, pois a agricultura proporcionou um rápido estoque de alimentos anuais. Sendo assim o as atividades físicas se tornaram menos necessárias para a sobrevivência do ser humano aparentemente a curto prazo. Isso fez com que o ser humano ficasse menos motivado a se locomover e assim gerando o hábito sedentário.
 
Mas então porque que sabendo de todos os benefícios associados à prática regular de exercícios, o ser humano em geral não se compromete?
 
Nosso mecanismo cerebral responsável pela motivação ocorre nos centros dopaminérgicos do cérebro, o qual opera por meio do ciclo estímulo-resposta, que se baseia no princípio de que para haver motivação e portanto estímulos é necessário que exista uma gratificação imediata.  A resposta certamente está no fato de que a recompensa ou gratificação gerada pela atividade é atrasada, ou seja, não se pode notar um efeito imediato. São necessários 30 minutos de atividade para que o efeito eufórico seja alcançado. Este efeito nem sempre é alcançado por indivíduos que não tem o hábito de se exercitarem. Com tantas distrações em nossa sociedade atual, como trabalho, televisão e vídeo games, estamos nos tornando habituados com esse estilo de vida. Além disso, temos o fato de que o subconsciente pode usar o sentimento de fadiga como uma resposta antecipada de regulação ao exercício, a fim de preservar a homeostase, assim possivelmente desencorajando a continuação do exercício por tempo suficiente.
 
Conclui-se que é mais provável que em curto prazo somente a dor e o desconforto associado a pratica de atividades físicas é percebido por não adeptos, assim os tornando mais propensos a desistir. Para que ela passe a fazer parte da rotina das pessoas em nossa sociedade talvez seja preciso encontrar meios de motivação para a sociedade em geral, para que seu efeito eufórico seja notado para que assim o corpo naturalmente trabalhe para que a prática seja desejada e conseqüentemente incorporada em nosso cotidiano.

Nos próximos posts explorarei a relação entre nossa alimentação e hábitos sedentários.
 
Um ótimo dia a todos.

Referências

  • McKimmie, Marnie. (2005). “Walk away from depression.” The West Australian (Perth), online.
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  • Francis, Lori. “The Biology of Pleasure.” online.
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  • Mattson, Mark P., Wenzhen Duan, Ruqian Wan, and Zhihong Guo. (2004). “Prophylactic Activation of Neuroprotective Stress Response Pathways by Dietary and Behavioral Manipulations.” NeuroRx.
  • Farley, Tom, and Deborah Cohen. (2001). “Fixing a Fat Nation.” Washington Monthly, online.
  • “The Antidepressive Effects of Exercise.” online.
  • Sanders, Jenny. “Brain Physiology.”
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